Luís Miguel Reis

“Carcavelos – 20 anos de estaleiro…” – Luis Miguel Reis

Recordemos o Plano de Pormenor do Espaço de Reestruturação Urbanística de Carcavelos-Sul (PPERUCS). É importante não esquecer o destino dado a uma das poucas áreas livres e verdes no eixo litoral Algés-Cascais.

Esta é uma área com 54 hectares, situada junto à praia, bem servida por infraestruturas rodoviárias, integrando a ribeira de Sassoeiros, bem como valores edificados patrimoniais, o que lhe confere uma relevante importância estratégica.

É certo que uma determinada empresa tinha direitos adquiridos sobre este terreno, mas não é menos verdade que se perdeu uma oportunidade única para acrescentar valor ao concelho. A Câmara Municipal PSD/CDS, enquanto coautora do projeto, não foi capaz de assegurar o equilíbrio do interesse público com o interesse privado.

Se há trinta anos (quando os direitos foram adquiridos durante a vigência do PSD na CMC) fazia sentido apostar em habitação nova, pela degradação do parque habitacional existente ou mesmo pela falta de oferta de casas para venda ou arrendamento, hoje esta não é a realidade.

Não só tem Cascais um parque habitacional recente, como 10% dos seus alojamentos estão vagos. Só na freguesia de Carcavelos-Parede existem mais de 2000 fogos por habitar. Se há trinta anos poderia fazer sentido construir em Carcavelos-Sul sensivelmente 1900 fogos, hoje a aposta deveria ser exatamente a contrária.

A própria Câmara reconhece isso no Plano Diretor Municipal, que em tudo contradiz a realidade criada pelo PPERUCS.

Sabendo que a qualidade paisagística do litoral é um dos principais fatores que atraem visitantes ao nosso concelho, receio que construir tanto e tão perto do mar possa comprometer os recursos naturais, a qualidade de vida das populações e a atratividade do território.

O PPERUCS não acautela o bem-estar e a qualidade de vida desejável. Este é um projeto que rasgará a frente da marginal ao longo dos próximos 20 anos, com um estaleiro a céu aberto. A construção dos equipamentos fundamentais é remetida para o final do horizonte temporal do plano – primeiro, constroem os prédios habitacionais e só depois de assegurar a venda destes é que fazem o resto.

Entretanto, a situação degrada-se para quem usa a praia de Carcavelos – como local de trabalho ou lazer. Afinal, não ficámos esclarecidos sobre qual será o impacto na praia de Carcavelos, na extensão do seu areal e nos ventos e ondulações, essenciais à prática do surf e de outros desportos náuticos.

E porque a Câmara anda a fingir que o MOBICascais resolve alguma coisa, como se resolverão os problemas de tráfego, estacionamento e mobilidade considerando não só esta construção mas também os 110 fogos a construir na Quinta do Barão (mais áreas de comércio, serviços e hotel), os 14.350m2 de serviços a construir em Sassoeiros Norte e ainda o novo Pólo Universitário adjacente?

Uma visão para Cascais é muito mais do que retalhar o concelho em planos de pormenor desarticulados entre si e desenraizados de qualquer estratégia global. De uma Câmara esperava-se uma outra capacidade de gestão bem como uma solução com menos impactes no meio ambiente e na envolvente, uma solução que melhorasse a qualidade de vida, com novos equipamentos, espaços verdes e melhores acessibilidades.

Quanto às obras essas começam depois das eleições para que a poeira não prejudique ainda mais os resultados.


Artigo originalmente publicado na edição de 15 de Fevereiro do Jornal Costa do Sol.

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