Luís Miguel Reis

“MOBI Cascais – mobilidade ou a arte do embrulho?” – Luís Miguel Reis

No seguimento do artigo anterior dedicarei mais estas linhas à desmistificação de mais uma parangona, desta feita o MOBI Cascais.

O relevo que tem sido dado a esta iniciativa é bem revelador de que não existem limites à imaginação e a partir daí qualquer pequeno passo leva-nos para o campo do surreal e da fantasia.

Se não vejamos a forma como nos é apresentado – ”sair de casa de carro, deixá-lo no parque de estacionamento mais próximo e apanhar uma bicicleta até à estação dos comboios ou um autocarro até ao centro da vila”. E fazem disto apanágio da mobilidade democrática, uma suposta mobilidade para todos.

É certo que cada vez mais pessoas usam bicicleta – não só para lazer como para a sua mobilidade diária. Mas para quem conhece o território cascalense, que de plano tem pouco, percebe-se que a bicicleta enquanto solução de mobilidade interna diária é demasiado forçado.

Seguramente alguns dos leitores lembram-se que na Marinha Grande, há umas dezenas de anos, na hora de saída das fábricas, o trânsito ficava parado durante largos minutos para que as centenas de funcionários saíssem nas suas bicicletas rumo a casa.

No entanto, tal ambição afigura-se anedótica quando se pede que o munícipe saia de casa de carro, estacione algures na periferia, pedale até um nó intermodal e aí recorra a um outro meio de transporte, comboio ou autocarro, para se locomover até ao seu local de trabalho. Não esquecendo o alegre e enérgico retorno a casa contemplando mais umas pedaladas. Estou certo no entanto que fará muito bem à saúde (esqueceram-se de publicitar esta mais-valia), excepto nos dias de chuva.

O que não se esqueceram de publicitar foi a suposta criação de mais de um milhar de estacionamentos junto às estações de comboio – alguém vislumbra algum parque novo? Obviamente que não. Os lugares que passaram a ser tarifados por parquímetros da empresa municipal – CascaisPróxima – estão ali ao dispor. E na sua maioria vazios, na medida que os munícipes fugiram de pagar mais um imposto municipal que lhes quiseram impor, sobrecarregando as zonas residenciais adjacentes.

Ora, se é ano de eleições e como os parques estão vazios, mais vale realizar aqui um número de contorcionismo. Primeiro colocam à cobrança aquilo que era livre e gratuito para depois, dando um ar de magnificência, isentar o suposto pagamento no seio de uma configuração, que creem, só trará benefícios aos mais de 210 mil cascalenses e aos 1,2 milhões de turistas que visitam o concelho anualmente.

Simplificando e falando a verdade, os valores dos passes (CP e Scotturb) mantêm-se e o desconto propagandeado resume-se ao estacionamento que os utentes dos transportes, na sua grande maioria, já não pagavam (ou porque deixavam o carro em casa ou porque paravam os seus veículos numa zona não tarifada).

Não posso contudo terminar este texto sem voltar à questão das bicicletas. Convenhamos que anunciar o alargamento da rede de ciclovias para um total de 75 km quando não se construiu 1 km para além do que já existia, limitando-se a pintar no asfalto umas bicicletas, parece-me pretensioso.

Afinal, sempre por lá puderam circular e não será essa imagem que trará aos ciclistas maior segurança.

Ou seja, mais um embrulho!


Artigo originalmente publicado na edição de 1 de Fevereiro do Jornal Costa do Sol.

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