A possibilidade de introduzir portagens na Avenida Marginal abriu uma discussão que vai muito além do pagamento pela utilização de uma estrada.
Está em causa uma das principais ligações entre Cascais, Oeiras e Lisboa, utilizada diariamente por milhares de pessoas para trabalhar, estudar ou realizar as suas deslocações quotidianas.
Mesmo perante a possibilidade de serem criadas isenções para quem vive, trabalha ou estuda em Cascais, permanecem questões fundamentais: que impacto teria uma portagem no trânsito dentro do concelho? Que alternativas existem para quem utiliza diariamente a Marginal? E faz sentido criar uma nova diferenciação entre cidadãos numa infraestrutura que serve toda a Área Metropolitana de Lisboa?
Para o Partido Socialista de Cascais, a resposta é clara: somos contra.
“Cascais não é uma ilha”
João Ruivo, presidente da Comissão Política Concelhia do PS Cascais, alerta para uma questão central: Cascais não pode pensar a sua mobilidade isoladamente dos concelhos vizinhos.
“Cascais não é uma ilha.”
João Ruivo
Todos os dias, milhares de pessoas atravessam as fronteiras administrativas entre Cascais, Oeiras e Lisboa. Vivem num concelho, trabalham noutro, levam os filhos à escola noutro ou dependem de serviços espalhados por diferentes pontos da Área Metropolitana.
Uma eventual portagem, mesmo com isenções para quem vive, trabalha ou estuda em Cascais, introduziria uma nova diferenciação na circulação entre municípios. A mobilidade deve caminhar para uma maior integração metropolitana, não para novas barreiras entre concelhos.
O trânsito não desaparece: muda de sítio
Se uma parte dos automobilistas tiver de pagar para utilizar a Marginal, alguns procurarão inevitavelmente percursos alternativos. O trânsito poderá ser transferido para a rede viária interior, aumentando a pressão sobre Carcavelos, Parede, São Pedro do Estoril, São João do Estoril e Estoril.
Este problema não desaparece com uma eventual isenção para os munícipes. Um residente pode não pagar a portagem e, ainda assim, sofrer as consequências através de mais trânsito junto de casa, das escolas ou do comércio local.
Qualquer alteração profunda à circulação na Marginal deve, por isso, considerar o impacto sobre toda a rede rodoviária do concelho.
Qual é a alternativa para quem utiliza a Marginal?
A discussão também não pode ser desligada da oferta de transportes públicos. A Linha de Cascais é uma alternativa fundamental para muitas deslocações entre Cascais e Lisboa, mas não substitui todas as viagens realizadas através da Marginal.
Nem todas as deslocações começam e terminam junto de uma estação ferroviária. Existem percursos entre diferentes pontos de Cascais, Oeiras e Lisboa, deslocações familiares e profissionais e viagens que obrigariam à utilização de vários meios de transporte.
Incentivar uma menor utilização do automóvel exige primeiro alternativas de transporte público competitivas, integradas e capazes de responder às necessidades reais da população. O programa do PS Cascais defende também a concretização das vias longitudinais projetadas para facilitar a circulação interna e melhorar as ligações a Oeiras e Sintra.
Câmara decidiu assumir os encargos com meios próprios
Numa declaração assinada a 18 de junho de 2026, no âmbito da transferência para o Município de troços da EN6 — Avenida Marginal, N6/7, EN249-4 e ER247-6, o presidente da Câmara Municipal de Cascais, Nuno Piteira Lopes, declarou que o Município prescinde dos recursos financeiros destinados às despesas de manutenção, conservação e reparação desses troços.
O mesmo documento determina que Cascais assume integralmente esses encargos com meios financeiros próprios.
O documento não estabelece qualquer relação entre esta decisão e uma eventual criação de portagens. Essa distinção é importante. Mas a coincidência dos dois temas torna legítimas várias perguntas: como pretende a Câmara financiar os novos encargos? Quanto custará anualmente a manutenção destas estradas? Que investimentos estão previstos? E que impacto terão essas responsabilidades nas contas municipais?
Veja a intervenção de João Ruivo
João Ruivo explica a posição do PS Cascais sobre a possibilidade de introdução de portagens na Avenida Marginal.